Por dentro do adeus musical de Gregg Allman


Na noite de 26 de maio, Gregg Allman ouviu sua voz de canto pela Ășltima vez. Michael Lehman, gerente de Allman, enviou as versĂ”es completas de quatro novas mĂșsicas de Allman para sua casa em Savannah, na GeĂłrgia, e Allman conseguiu ouvir quase metade do seu prĂłximo ĂĄlbum. "Ele estava totalmente lĂșcido e estava excitado", lembra Lehman. "Ele estava falando calmamente, mas ele nĂŁo sofria nenhuma dor. Ele amava as faixas e sabia o que ele havia feito".

No dia seguinte, Allman sucumbiu ao cùncer de fígado que ele estava lutando por cinco anos. Lehman e Don Was, que produziram as sessÔes, começaram a trabalhar no o que era de repente o ålbum de despedida de Allman, que ele próprio tinha apelidado de "Southern Blood". "Era um pouco tåcito, mas estava realmente claro que eståvamos preparando uma declaração final, de vårias maneiras", diz Was. "Foi muito pesado, cara. Não íamos fazer um piquenique".

Quando Allman começou a planejar o ĂĄlbum, ele jĂĄ desafiou as chances. Ele havia passado por um transplante de fĂ­gado em 2010, mas dois anos depois foi diagnosticado com cĂąncer de fĂ­gado. De acordo com Lehman, as cĂ©lulas cancerĂ­genas que estavam no corpo de Allman antes do transplante se espalharam para um dos pulmĂ”es do mĂșsico. Dada a escolha do tratamento por radiação, Allman passou a temero que o tratamento prejudicasse suas cordas vocais. Como Lehman disse: "Ele disse:' Eu vou fazer o que eu amo fazer - estar em minha casa e com minha famĂ­lia e estar na estrada com os fĂŁs. Eu nĂŁo vou deixar que algo assim me pare'".

No momento em que Allman e sua banda chegaram aos Fame Studios em Muscle Shoals no ano passado, Allman jĂĄ havia mapeado cuidadosamente o que estava procurando ser sua declaração final. Em quase todos os pormenores, "Southern Blood" faz referĂȘncias aos aspectos do passado de Allman. Allman escolheu o Fame porque ele e Duane gravaram com a Hour Glass lĂĄ, e durante o mesmo perĂ­odo, Duane cimentou sua reputação no Fame apoiando Aretha Franklin, Wilson Pickett e outros herĂłis do R&B. "Foi uma maneira de aproveitar o espĂ­rito de Duane", diz Was. (Em uma entrevista para promover o seu concerto de tributo de 2014, "All My Friends", Allman mencionou que o disco seria produzido por Was - que ainda nĂŁo tinha ouvido a notĂ­cia, mas ficou emocionado. "Foi uma jogada muito Gregg" Diz: "NĂłs nunca conversamos sobre isso. Quando o vi em 'All My Friends' [onde foi o diretor musical], ele disse: 'VocĂȘ Ă© legal com isso? VocĂȘ apenas ri, homem'".)

Allman esperava escrever um novo lote de cançÔes originais para o projeto, mas entre o trabalho em curso e as questĂ”es mĂ©dicas, esse plano foi logo abandonado. "EntĂŁo, fomos com a ideia de escolher uma grande seleção de mĂșsicas que tiveram um significado profundo para Gregg", diz Lehman. "A ordem das mĂșsicas conta a histĂłria do Gregg. Quando Gregg as escolheu, ele sabia onde elas estavam na jornada de sua vida. Ele jĂĄ estava mais com a doença em um estado mais avançado".

Don Was com a banda que gravou "Southern Blood" e a equipe do Fame

Tal como acontece com o local da gravação, as mĂșsicas ecoariam a vida de Allman. Ele escolheu "Blind Bats and Swamp Rats" do Johnny Jenkins porque Duane tinha gravado com Jenkins. Voltando ao inĂ­cio de sua carreira, Allman selecionou "Song for Adam" de Browne, jĂĄ que ele e Browne se encontraram em Los Angeles no final dos anos sessenta e permaneceram amigos Ă­ntimos. Gregg era um fĂŁ do Tim Buckley, por isso gravou "Once I Was", co-escrito com o Larry Beckett. Segundo o guitarrista Scott Sharrard, "Ele me disse que ele era um grande fĂŁ de Tim Buckley e que foi uma grande emoção quando ele conversou por telefone com Tim". "Gregg disse que eles tinham planos de se juntar e escrever mĂșsicas, mas Tim morreu tragicamente".

"NinguĂ©m ouviu Gregg fazĂȘ-la", diz o guitarrista. "Ele nunca tocou isso no palco. Ele nunca gravou. Ele literalmente acabou de tocar pra mim no seu quarto. Eu disse a Don: 'Foi um crime nĂŁo ter sido gravado e nĂłs temos que conseguir isso enquanto podemos.' NĂłs fizemos isso em uma tomada. E essa trilha, cara, apenas corta meu coração toda vez que eu ouço isso".

Durante vĂĄrias reuniĂ”es com Allman para mapear o projeto, foram sugeridas cançÔes melancĂłlicas como "Going Going Gone" de Dylan e "Black Muddy River" do Jerry Garcia e Robert Hunter. Sharrard disse que Allman estava inicialmente inseguro sobre o Ășltimo: "Ele amava os caras do Dead e teve grandes amizades, mas nĂŁo sei se esse estilo de escrita era o seu", diz ele. "Mas ele se animou com a melodia, e no final ele disse: 'Cara, eu amo muito essa mĂșsica'". NĂłs o vimos evoluir atravĂ©s dessa melodia". TambĂ©m escolheu o hino de Lowell George, "Willin'". "Ele Ă© como o motorista de caminhĂŁo naquela mĂșsica: 'Mostre-me um sinal, eu vou continuar a me mover.' Continue tocando. Apenas me leve ao show. Eu pensei naquele cara, e Gregg conseguiu imediatamente".

Allman e Sharrard co-escreveram "My Only True Friend", infundido com o passado mĂ­tico de Allman. Inspirado pelas histĂłrias de Allman sobre seu falecido irmĂŁo, Sharrard começou a escrever a mĂșsica na voz de Duane conversando com Gregg. "Eu nunca disse a ele porque nĂŁo queria assustĂĄ-lo, pois seu irmĂŁo era uma figura tĂŁo importante em sua vida", diz Sharrard. Sem saber a inspiração de Sharrard, Allman respondeu com um verso como se estivesse falando de volta a Duane. "NĂŁo Ă© um ĂĄlbum sobre morrer", diz Was. "Gregg estava explicando sua vida e fazendo sentido, tanto para os fĂŁs que ficaram com ele hĂĄ dĂ©cadas e para si mesmo".


Uma vez que as sessĂ”es começaram, em março de 2016, a saĂșde de Allman marcou o ritmo da programação. Ele se cansou facilmente e o trabalho foi limitado a cerca de quatro horas por dia - gravando duas mĂșsicas por dia - nos nove dias no estĂșdio. "Nesse ponto, vocĂȘ podia ver que sua saĂșde nĂŁo estava 100%", diz Was. "Mas ele e eu nunca falamos sobre isso, uma vez. Eu nĂŁo acho que ele realmente queria aceitar sua situação atĂ© que ele fosse fisicamente incapaz de continuar. Ele sĂł queria continuar tocando". Adiciona Sharrard: "Tudo estava funcionando contra o relĂłgio nos Ășltimos dois ou trĂȘs anos. Isso pesava sobre nĂłs todos os dias".

Uma vez que Allman e a banda ensaiaram alguns dos materiais de antemĂŁo, o trabalho progrediu de forma eficiente. Para Was, o momento mais poderoso foi quando abordaram "Song for Adam". Allman disse que era a mĂșsica sobre um amigo que de repente se foi, fazia ele pensar em Duane. Com a fita rolando e a banda tocando, Allman chegou Ă  linha "Ainda parece que ele parou de cantar no meio de sua mĂșsica" e engasgou. "Ele nĂŁo conseguiu terminar o verso", dizia, reunindo-se enquanto recordava aquele momento. "Ele nunca conseguiu as duas Ășltimas linhas. Eu sei que ele estava pensando em seu irmĂŁo. Todos nĂłs decidimos, 'NĂŁo vamos consertar isso'". (O prĂłprio Browne adicionou uma parte de harmonia Ă  mĂșsica mais tarde).

De acordo com Lehman, o plano inicial para finalizar "Southern Blood" exigiu alguns ajustes ele deveriater sido lançado em janeiro de 2017. Mas depois que a condição de Allman começou a piorar no final de 2016, Allman nĂŁo conseguiu retornar a um estĂșdio e sua voz ficou mais fraca. Os planos para adicionar a sua voz a duas faixas de apoio - "Pack It Up" de Freddie King e "Hummingbird" de Leon Russell - nunca foram finalizados, entĂŁo essas duas mĂșsicas nĂŁo fazem parte do ĂĄlbum.

Ouvindo as fitas, Was e Lehman perceberam o poder da voz de Allman e das gravaçÔes. Depois de alguns overdubs na pĂłs-produção, "Southern Blood" estava em fase final de conclusĂŁo quando a saĂșde de Allman teve um giro fatal. Para Was, Allman disse: "VocĂȘ sabe o que fazer aqui. VocĂȘ entendeu. Eu sei que vocĂȘ conseguiu. Eu gosto do que estĂĄ acontecendo. Apenas faça isso".


"My Only True Friend", primeiro single do ĂĄlbum e Ășnica faixa escrita pelo Gregg

Durante suas Ășltimas conversas, Lehman disse que Allman lhe deu diretrizes rĂ­gidas sobre o lançamento do ĂĄlbum. Allman queria que ele estivesse disponĂ­vel inĂ­cio de setembro para evitar o excesso de lançamentos de grandes nomes que saĂ­ssem mais tarde no outono. Allman nĂŁo falou muito sobre sua condição nos Ășltimos anos de sua vida - "Ele era um homem orgulhoso e nĂŁo queria que as pessoas se sentissem arrependidas por ele", diz Lehman - mas ele concedeu permissĂŁo aos que estĂŁo ao seu redor para falar sobre sua piora nos Ășltimos cinco anos.

Como estĂĄ, o legado terminarĂĄ com "Southern Blood". "NĂłs querĂ­amos criar um corpo de trabalho como o que Johnny Cash fez no final de sua vida", diz Lehman. "NĂłs pensamos que nĂłs farĂ­amos quatro ou cinco ĂĄlbuns de estĂșdio. Infelizmente, nĂłs sĂł temos dois".

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